Para controlar jogo do bicho, grupo tinha até lista de assassinatos

Jogo do bicho – O jogo do bicho é uma modalidade de loteria ilegal amplamente difundida no Brasil, organizada de maneira informal e não regulamentada no país.

Para a maioria dos brasileiros, ouvir sobre a condenação de pessoas envolvidas no jogo do bicho deve soar, a princípio, estranho. Mas em Campo Grande, operações policiais realizadas nos últimos anos revelaram que, por trás dos canhotos das apostas, a violência impera.

Roubos, ameaças e assassinatos são palavras comuns no vocabulário de quem comanda a jogatina.

listadequemvaipular
Lista de pessoas marcadas para “pular” (morrer) apreendida pela Successione (Foto: reprodução de processo)

Assim foi com a família Name, que por anos comandou o jogo do bicho na capital do Mato Grosso do Sul e viu o fim dos negócios ilegais com a Operação Omertà. Assim caminhava para ser a história do grupo liderado pelo deputado estadual Roberto Razuk Filho, o Neno Razuk (PL).

As provas estão na investigação feita pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) e reforçadas na condenação de 11 integrantes da organização criminosa, assinada pelo juiz da 4ª Vara Criminal de Campo Grande no dia 15 de dezembro.

Consta no processo que o grupo tentava ocupar a lacuna deixada pelos Name no jogo do bicho da capital. No centro da acusação, estão três roubos a malotes de um grupo rival ao deles.

Mas as provas reunidas mostram que a guerra pelo comando do esquema ilegal na cidade iria muito mais longe se a polícia não tivesse frustrado os planos com a operação Successione.

No dia em que a polícia bateu à porta dos alvos da ação, anotações que mostravam um monitoramento detalhado do grupo rival foram encontradas na casa de Gilberto Luis dos Santos, major reformado da Polícia Militar, que usava a experiência e a arma em benefício do deputado. No mesmo local, um caderno revelou os próximos passos do grupo.

Além das folhas em branco, as equipes encontraram as seguintes anotações:

LISTA DE QUEM VAI PULAR.

Três nomes foram listados ali (confira no início da coluna). “Pular” no mundo do crime é um jargão para morrer.

Para a polícia e também para o juiz, não há dúvidas, as três pessoas estavam marcadas para morrer.

Nas fases judiciais do processo, Gilberto alegou que a lista era de quem “pularia carnaval” naquele ano. Sem provas, sem contexto, sem cabimento.

“Há fortes indícios de que o grupo planejava assassinatos para eliminar rivais e traidores. A lista de execução apreendida na residência de Gilberto aponta as pessoas que iriam pular (termo utilizado no meio criminoso para morrer ou ser executado).”

Ligações interceptadas ao longo das apurações só comprovaram o “plano” do grupo. Mais de uma vez, os integrantes repetiram que a “cabeça” do líder do grupo rival estava a prêmio. O valor oferecido pela execução variava entre 50 e 100 mil reais. Detalhes da investigação ainda revelaram que o alvo seria atraído a uma reunião para que fosse pego.

O crime não aconteceu. Assim como outros que foram “encomendados”.

Para executá-los, diz a condenação, os suspeitos tinham até pistoleiro: Taygor Ivan Moretto Pellissari, um matador de aluguel vindo da fronteira, foi preso com uma pistola Glock G17 em Ponta Porã dois dias depois da apreensão de 705 máquinas de jogo do bicho na rua Gramado.

O rapaz se apresentava como estudante de medicina em 50% do tempo; no restante, era “matador”, responsável por execuções com mais de 30 tiros, por promessas de morte e ameaças. “50% no mundo do crime, 50% no mundo de um estudante de medicina da hora.”

Taygor também foi pego em interceptações telefônicas, registradas logo após o episódio da apreensão. Nas conversas, afirmava que identificaria o X9 do grupo e o mataria. Ele ainda enviou fotos de armas com a legenda do valor do armamento, seguida de especificação do calibre.

Esse quebra-cabeça de provas, para a Justiça, deixou claro que a intenção do grupo era assumir o controle do bicho em Campo Grande e que, para isso, faria o que fosse necessário, inclusive matar.

Defesas

A defesa de Neno Razuk nega as acusações e reforçou que vai recorrer da decisão que o condenou a 15 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão, em regime fechado, além da perda do mandato eletivo e da interdição para exercício de cargo público pelo prazo de 8 anos.

A coluna não conseguiu localizar a defesa de Gilberto e de Taygor.

Gilberto Luis dos Santos foi condenado a 16 anos, 4 meses e 29 dias de reclusão, em regime fechado; já Taygor foi sentenciado a 4 anos, 11 meses e 15 dias de reclusão, em regime fechado. Ele foi solto após sua primeira prisão e é considerado foragido.

Primeira Pagina

Compartilhe :

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest