Classificado como criticamente ameaçado de extinção, o zogue-zogue de Mato Grosso corre o risco de desaparecer. Em Sinop, no norte do estado, uma família da espécie vive isolada em um pequeno fragmento de floresta, cercado por áreas de pastagem e pelo reservatório da Usina Hidrelétrica de Sinop. Para evitar o desaparecimento desses primatas, pesquisadores, ambientalistas e moradores da região se uniram em um projeto de reflorestamento que busca reconectar áreas degradadas.

O alerta surgiu de forma inesperada, quando o produtor rural Armando Schlindwein ouviu um som vindo da mata e acreditou que fosse o canto de um pássaro. Ao se aproximar, percebeu que se tratava de macacos da espécie zogue-zogue.
“Saí da minha casa achando que era um pássaro cantando. Quando cheguei aqui, a surpresa: dois macacos. Foi bem nessa árvore”, contou.
Segundo pesquisadores, o fragmento de floresta onde vive a família está cercado por dois tipos de impacto. De um lado, o uso agropecuário do solo. Do outro, o lago formado pelo reservatório da usina, que inundou parte da vegetação e separou esse grupo do restante da população da espécie. Ao todo, 337 quilômetros quadrados de água separam uma margem da outra.
O biólogo Gustavo Canale, da Universidade Federal de Mato Grosso, alerta que o isolamento compromete a sobrevivência dos primatas.
“São populações que agora estão isoladas. O zogue-zogue de Mato Grosso é um dos macacos mais ameaçados do mundo e, se nada for feito em pouco tempo, essa população pode desaparecer”, afirma.
A situação é ainda mais delicada porque a espécie foi descoberta recentemente pela ciência e é endêmica do estado, ou seja, só ocorre em Mato Grosso. Segundo Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Conservação de Primatas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, isso impõe uma responsabilidade direta sobre a conservação do habitat.
Diante da urgência, várias instituições se mobilizaram em uma força-tarefa para restaurar a floresta. O projeto envolve universidades, centros de pesquisa, movimentos sociais e organizações ambientais. A proposta é reconstituir dois fragmentos florestais hoje separados por uma área aberta, criando um corredor ecológico que permita a circulação dos animais.
A área a ser recuperada tem pouco mais de um hectare e fica entre o fragmento onde vive a família de zogue-zogue e outros 12 hectares de Área de Preservação Permanente. Os pesquisadores trabalham com regeneração natural, enriquecimento de espécies nativas e a técnica da muvuca, que utiliza a semeadura direta de sementes florestais misturadas com plantas de ciclo curto.
Além da recuperação ambiental, o projeto aposta em sistemas agroflorestais, que conciliam conservação da floresta e produção de alimentos. A ideia é garantir recursos tanto para os animais quanto para as famílias que vivem na região.
A iniciativa aposta na união entre ciência, comunidade e restauração ambiental como caminho para garantir que o zogue-zogue de Mato Grosso continue existindo, não apenas como uma descoberta recente da ciência, mas como parte viva da biodiversidade amazônica.






