A emoção de entrar ao vivo, o frio na barriga ao ouvir o “valendo” no ponto eletrônico, o improviso diante do inesperado e a responsabilidade de informar em tempo real. Esses elementos sempre fizeram parte da rotina de quem atua na televisão, mas marcaram com ainda mais intensidade os primeiros anos da Rede Mato-Grossense de Comunicação (RMC), que completa 60 anos de história em 2025.
Seja em grandes reportagens ou em ocorrências do dia a dia, as coberturas ao vivo são, até hoje, um dos pilares do jornalismo da TV Centro América e TV Morena.
Mas se hoje as transmissões contam com tecnologia de ponta, como drones e sinal digital em alta definição, nos primórdios da emissora a estrutura era outra, muito do que ia ao ar exigia criatividade, esforço conjunto e, muitas vezes, improviso.
A TV Centro América iniciou suas transmissões experimentais em julho de 1968. Como não havia videoteipe (fita que era usada para registro de imagens), todos os programas eram exibidos ao vivo, tornando qualquer erro irreversível. Isso exigia preparação e adaptação constantes da equipe.
O caminho para a implantação da TV em Cuiabá foi longo e desafiador. Assim como ocorreu com a TV Morena, inaugurada em Campo Grande em 24 de dezembro de 1965, era necessário que houvesse 1.500 aparelhos de televisão instalados nas residências para obter a concessão junto ao CONTEL (Conselho Nacional de Telecomunicações).

Os primeiros programas da emissora refletiam a necessidade de adaptação, a programação iniciava às 18h30 com:
- “Momentos de Paz”, geralmente conduzido por um padre ou pastor, trazendo reflexões e mensagens religiosas
- “Nossa Gente Nossos Valores”, que destacava artistas locais;
- “Galeria de Vultos Ilustres”, sobre personalidades históricas de Mato Grosso;
- “Educação e Cultura”, apresentando a história do estado;
- “Pote Muringa Panela de Barro”, programa que tinha objetivo incentivar o teatro e o folclore regional
- “Opiniões e Comentários”, voltado para debates sociais;
- “Noite de Gala”, divulgava músicas eruditas
- “Ciranda Cirandinha”, voltado ao público infantil;
- “Sociedade e Etiqueta” fala sobre acontecimentos sociais com tom de elegância;
- “Agro-pecuária em Fóco”, programa apresentado por agrônomos e veterinários
- “Esporte em Desfile”, trazendo as principais notícias esportivas da região.
- “Zoom” programa esportivo.
Operação sobre rodas
Nas décadas passadas, transmitir ao vivo exigia montar uma verdadeira operação logística. Carros com antenas e grandes cabos, as chamadas unidades móveis, eram estacionados próximos aos locais das reportagens. Toda a estrutura era conectada manualmente, com fios, ajustes de imagem e som feitos na hora.

A jornalista Carla Rocha, que começou sua trajetória na TV Centro América aos 15 anos, em 1991, lembra com carinho e adrenalina dos bastidores dessa fase.
“Quando entrei na TV, eu atuava como operadora de vídeo. Corrigia o sinal das câmeras em tempo real, com os cabos puxados por toda parte. Hoje parece automático, mas na época era tudo no braço”, lembra Carla.
Ao vivo, tudo pode acontecer
Um dos episódios mais marcantes vividos por ela ocorreu durante uma transmissão da Corrida de Reis. Enquanto passava com a equipe em frente ao Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC), antigo Carumbé, ouviu disparos. O que seria mais uma cobertura esportiva virou caso de polícia, em julho de 1999.
“Quando passamos, vimos cerca de 70 presos fugindo pela porta da frente. Liguei pra redação e disse: ‘Chama a polícia, que ninguém tá sabendo ainda’. A gente filmou tudo, e fomos os primeiros a registrar a fuga. Foi inesquecível.”, relembrou
Carla também explicou que, diante das limitações técnicas da época, muitas reportagens ao vivo precisavam ser “simuladas” tempo quase real. Esses “links em fita” eram uma alternativa mais rápida de transmissão ao vivo.
“A gente gravava o stand-up e mandava por motoqueiro direto para a TV. Em 15 minutos, o material já estava no ar, como se fosse ao vivo. Às vezes era mais rápido do que montar toda uma unidade móvel”, revela.
A emoção continua no ar

Mesmo com os avanços tecnológicos, a essência da transmissão ao vivo permanece: informar com responsabilidade, agilidade e emoção. Para quem viveu os bastidores antes da era da internet, o orgulho é ainda maior.
“Era tudo na raça, no fio puxado, no sinal instável. Hoje é tudo mais rápido, mas aquela época tinha um sabor especial. Era suor, improviso e muita paixão pelo jornalismo”, finaliza Carla Rocha, que deixou a emissora em 2002, após 11 anos de dedicação.






