“Gerente” dos Razuk, advogado buscou PCC para retomar jogo do bicho na fronteira
Jornal do MS
O advogado Rhiad Abdulahad ocupava papel estratégico nos planos de expansão da família Razuk para o domínio da contravenção em Mato Grosso do Sul, ao mesmo tempo em que tentava retomar, das bancas do jogo do bicho, aquelas que pertenciam a seu pai, José Eduardo Abdulahad, o “Zeizo”, no Paraguai, aponta investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado).
Rhiad Abdulahad. (Foto: Facebook)
Preso desde a deflagração da força-tarefa, em novembro do ano passado, Rhiad é um dos 20 réus acusados de integrar organização criminosa armada, liderada por Roberto Razuk e seus filhos Jorge, Rafael e o deputado estadual Neno Razuk (PL).
Enquanto atuava como um dos “gerentes” da organização criminosa, o advogado, segundo a apuração, buscou um aliado de peso: o PCC (Primeiro Comando da Capital). A facção criminosa, de influência notória no país devido aos seus métodos violentos, já ameaçava o poder do bicheiro Fahd Jamil, líder de outro clã que por anos foi visto como intocável.
Com base nos dados levantados pelo Gaeco, que incluem inúmeras mensagens, áudios e ligações telefônicas, Rhiad pediu aos líderes do PCC ajuda para retomar o controle do jogo do bicho no Paraguai, conhecido como a banca do “Gato Preto”, que, segundo ele, foi chefiada por Zeizo por 20 anos, de 1994 até 2014, quando o território foi tomado por Fahd e seu filho, Flavio Correia Jamil Georges.
José Eduardo foi um dos alvos da primeira fase da Operação Successione, em dezembro de 2023, mas não foi encontrado e segue foragido.
Em uma das interceptações do Gaeco, de dezembro de 2024, o advogado explica como teria ocorrido a tomada de poder do grupo de Fahd sobre as bancas de Zeizo a um “Geral” do PCC, uma das classes de liderança da facção. Quando se entregou à polícia, em maio de 2021, após anos foragido, Fahd argumentou que um dos motivos era justamente o medo de ser assassinado pelo PCC.
No dia seguinte, Rhiad fez contato com integrantes do “Resumo” do PCC, um quadro ainda mais poderoso dentro da facção. Na conversa, os faccionados deixam claro que precisariam ouvir “os dois lados da história”, ou seja, o próprio Fahd, antes de tomar qualquer decisão.
Rhiad chegou a incluir na conversa outro de seus contatos, o “Alemão”, também antigo faccionado do PCC, para corroborar sua versão sobre a influência que o pai, Zeizo, exercia no jogo do bicho na fronteira.
No diálogo, o “Resumo” também esclarece que aquele não seria o melhor momento para qualquer mudança, devido à intensa presença policial na região. Na interceptação, fica claro que Rhiad se mostrava à vontade na conversa, marcada por certa cordialidade: o advogado chama os faccionados de “amigos” e chega a se convidar para um churrasco com os contatos do PCC.
Para o Gaeco, os dados telemáticos obtidos na investigação não deixam dúvidas de que Rhiad era membro ativo da organização criminosa chefiada por Roberto Razuk e seus filhos. Tal influência teria sido transferida pelo pai, que, segundo os dados da investigação, chega a afirmar que novos negócios deveriam ser “acertados com o guri (Rhiad)” e que ele ditava os rumos das articulações do grupo.
Com a prisão de investigados nas três primeiras fases da operação, o advogado teria ganhado ainda mais notoriedade dentro da organização, passando a negociar a expansão do jogo do bicho, inclusive em Campo Grande, além de atuar na lavagem de dinheiro, conforme aponta o Gaeco. Entre suas incumbências estava o contato direto para que membros operacionais do bando, como Odair da Silva Machado e Jean Cardoso Cavalini, obtivessem aval para a instalação de máquinas de jogos e a abertura de novas frentes de atuação.
Na residência do advogado, quando a 4ª fase da operação foi deflagrada, os policiais encontraram R$ 274,9 mil e 1.065 euros em espécie. A reportagem não conseguiu contato com a defesa.
A 4ª fase da Sucessione
O Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado) saiu às ruas em 25 de novembro passado em busca do grupo, ofensiva que também cumpriu 32 mandados de busca e apreensão em quatro estados.
As investigações do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) concluíram que a organização, sob a chefia da família Razuk a partir de Dourados, ditava o controle do jogo do bicho na capital e no interior do estado. Dois policiais militares da reserva também estão entre os réus.
O advogado João Nahar, que atua na defesa da família Razuk, informou que os réus ainda não foram citados e, portanto, “não têm conhecimento do conteúdo do processo ainda”.
“Tão logo sejam citados, tomarão conhecimento da acusação, farão exames e apresentarão defesa. Daí irão se pronunciar.”
João Nahar.
Clique aqui e confira que são todos os 20 réus da 4ª fase da operação.