Desde 2023, a cirurgiã-dentista Jhisely Romero Montalvo, de 24 anos, está na fila de espera para cirurgia de otorrinolaringologia no Hospital São Julião, em Campo Grande. Ela conseguiu atendimento por meio de pedido judicial, passou por consulta médica e realizou todo o pré-operatório, com exames como raio-X, análises de sangue e eletrocardiograma, mas nunca foi chamada para o procedimento. “Falaram que em duas, três semanas eles iriam chamar para fazer a cirurgia. Só que depois nunca chamaram”, relata.
Três anos depois, Jhisely continua aguardando sem previsão. Indicada para correção de desvio de septo, retirada da hipertrofia dos cornetos (a chamada “carne no nariz”) e tratamento da sinusite, ela afirma que convive diariamente com os sintomas e depende de medicação contínua para suportar o problema.
“Hoje eu vivo à base de remédio. Tenho dificuldade para respirar, para dormir. Todas as noites eu faço inalação para conseguir dormir,” afirma ao lembrar que já esteve no hospital várias vezes em busca de informações.
Sem condições de pagar cerca de R$ 18 mil pelo procedimento na rede privada, a paciente segue à espera de atendimento pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Outro paciente que aguarda pela cirurgia é o estudante Carlos Eduardo, de 18 anos. Ele convive diariamente com dificuldades para respirar, crises alérgicas constantes e um problema que avança de forma visível, segundo a mãe Gleiciane Ferreira Xavier, o nariz aparenta estar entortando.
O filho depende da cirurgia pelo SUS que, hoje, praticamente não acontece por falta de financiamento público. A mãe conta que Carlos passou por consulta e exames em janeiro de 2024, no Hospital São Julião, quando recebeu o diagnóstico de desvio de septo, rinite crônica e hipertrofia de cornetos. A orientação foi aguardar o contato para agendamento da cirurgia.
“Disseram que era só esperar um telefonema. Já passou mais de um ano e ninguém ligou. Ele sofre todo dia com dificuldade para respirar e alergia,” relata a mãe.
A família mora no Indubrasil (Núcleo Industrial), em Campo Grande, bem distante do hospital, que fica no outro extremo da cidade. Isso dificulta sua ida até o local para buscar informações.
A situação é recorrente, tanto que, em abril do ano passado, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) já havia cobrado a agilização das consultas e cirurgias de otorrinolaringologia na rede pública de Campo Grande.
O hospital São Julião informou que não houve mudança no cenário desde então e que ainda aguarda a renovação dos contratos para voltar a realizar as cirurgias. Atualmente, o São Julião não mantém contratualização com a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) para cirurgias de otorrinolaringologia, atuando apenas com consultas ambulatoriais reguladas pelo SUS.
Dados do hospital mostram que a instituição perdeu, desde janeiro de 2022, o repasse regular destinado às cirurgias de otorrinolaringologia. Até então, havia um teto financeiro anual de aproximadamente R$ 1,2 milhão para custear os procedimentos. Hoje, o hospital estima que a contratualização suspensa represente cerca de R$ 100 mil por mês que deixaram de ser investidos na especialidade.
A instituição chegou a realizar procedimentos por meio do programa estadual MS Saúde, com pagamento por produção, totalizando 402 cirurgias naquele período específico, mas o modelo não teve continuidade suficiente para absorver a demanda.
O Hospital São Julião afirma que mantém o atendimento gratuito e humanizado, mas reforça que a retomada das cirurgias depende exclusivamente de nova contratualização com o poder público.
Levantamento do SIH/SUS (Sistema de Informações Hospitalares do SUS) indica que, considerando todas as especialidades, o hospital realizou uma média de 30 a 40 cirurgias mensais entre 2024 e 2025. No entanto, os números mostram forte oscilação, reflexo direto da falta de financiamento contínuo.
Atualmente, existem somente 51 vagas contratualizadas para consultas ambulatoriais em otorrinolaringologia, número considerado insuficiente para a demanda crescente.
Sem programas ativos de redução de filas, o hospital classifica a situação como de demanda reprimida, com pacientes aguardando meses apenas para avaliação especializada e ainda mais tempo para cirurgia.
O tempo médio de espera por um procedimento eletivo, segundo a instituição, varia



