A hegemonia do dólar americano no comércio internacional, estabelecida há décadas, persiste com força. Dados do FMI demonstram a ampla utilização da moeda americana em faturas comerciais em diversas regiões do mundo: 96% nas Américas, 74% na Ásia-Pacífico e 79% no restante do .
Essa dominância levanta um questionamento: a busca por moedas alternativas ao dólar é primariamente uma estratégia técnica para mitigar riscos cambiais, ou uma manobra política com implicações geopolíticas?
A posição privilegiada do dólar confere aos Estados Unidos uma vantagem estratégica, permitindo financiar déficits comerciais e influenciar a economia global através de sua política monetária. No entanto, essa hegemonia gera críticas, especialmente em relação às assimetrias criadas para países emergentes, que se tornam vulneráveis às decisões do Federal Reserve (FED). A crise financeira de 2008-2009 ilustra esse ponto, quando políticas anticíclicas do FED exportaram inflação para economias emergentes, impactando negativamente sua competitividade.
O euro, a moeda alternativa mais bem-sucedida até o momento, oferece um estudo de caso revelador. Mesmo após anos de consolidação, dados da Eurostat de 2023 indicam que o euro é utilizado em apenas 51,6% das exportações dos países europeus, enquanto o dólar mantém 31,6% de participação. Nas importações, o dólar lidera com 50,3%, superando os 41,2% do euro. Esses números evidenciam as dificuldades enfrentadas por moedas alternativas, mesmo em suas zonas de influência.
O BRICS emergiu como um ator relevante no debate sobre a desdolarização após a crise de 2008-2009, motivado pela vulnerabilidade dos países emergentes às políticas monetárias americanas. O grupo defende a reforma das cotas de votação do FMI e Banco Mundial, a redução da dependência do dólar e o fortalecimento do G20 como principal fórum de governança financeira internacional.
A desdolarização transcende a mera mudança técnica nos sistemas de pagamento, representando uma estratégia política. As declarações de autoridades americanas, como a ameaça de tarifas sobre países que adotem medidas “antiamericanas” relacionadas ao BRICS, ilustram a dimensão geopolítica da questão.
A transição para moedas alternativas enfrenta desafios significativos, como o risco de corridas bancárias, que poderiam impactar a capacidade de empréstimo bancário e gerar choques nas taxas de juros. Além disso, a implementação de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) requer infraestrutura tecnológica robusta, marcos regulatórios complexos e medidas de segurança cibernética.
A análise aponta que a criação de uma moeda alternativa envolve tanto aspectos técnicos quanto potenciais consequências políticas. Atualmente, o debate no Brasil parece priorizar o aspecto político em detrimento de uma análise técnica aprofundada dos prós e contras dessa alternativa, negligenciando outras demandas consideradas mais urgentes no momento.





