Cão morre de raiva no Lago Norte e gera polêmica sobre morcegos

No final de julho, um cão foi diagnosticado com raiva no Lago Norte, apresentando sintomas como apatia, alteração de comportamento e paralisia facial antes de sua morte. O diagnóstico foi confirmado pelo Laboratório de Patologia Veterinária da Universidade de Brasília (UnB). A situação gerou reações imediatas, com suspeitas direcionadas aos morcegos, embora a nota oficial não tenha identificado a origem da infecção, mencionando apenas que o animal tinha acesso à fauna local, o que levou à ativação da vigilância ambiental.

Importante ressaltar que a ciência já possui conhecimento sobre os morcegos No Brasil, onde existem 186 espécies reconhecidas. A maioria desses animais desempenha papéis ecológicos vitais, sendo apenas três espécies hematófagas. O morcego-vampiro-comum, Desmodus rotundus, é o principal vetor de raiva para rebanhos bovinos. Em 2022, foram registrados 39 surtos no Rio Grande do Sul e 25 em Mato Grosso. Essa realidade alimenta estigmas em um país cuja economia é fortemente ligada à agropecuária.

O problema da atribuição de culpa aos morcegos se agrava com a propagação de medo e desinformação, já que a maioria das espécies de morcegos é frugívora, insetívora ou nectarívora, e tem funções essenciais como o controle de pragas e polinização. É importante lembrar que qualquer mamífero pode transmitir raiva, não apenas os morcegos.

Outro ponto a ser considerado é que os tutores do cão faleceram afirmando que o animal havia sido vacinado em uma campanha da Secretaria de Saúde, mas sem apresentar comprovação. Essa situação não é isolada, já que pesquisas recentes indicam que 52% dos donos de animais de estimação No Brasil têm dúvidas sobre a segurança ou a necessidade da vacinação. Cerca de 25% podem ser classificados como hesitantes em relação à imunização.

Além disso, existe uma correlação entre a hesitação em vacinar os pets e a falta de completude do esquema vacinal contra a covid-19 por parte dos tutores. O Brasil não registra casos de raiva humana transmitida por cães há mais de dez anos, resultado das campanhas de vacinação. Contudo, esse sucesso pode levar à complacência, fazendo com que a população se preocupe mais com possíveis vetores silvestres do que com a vacinação adequada de seus animais de estimação. A responsabilidade pela prevenção de novos casos de raiva recai sobre a cobertura vacinal e a fiscalização, não sobre a perseguição a grupos de animais que já enfrentam a perda de habitat e a desinformação crônica.

(*) Ludmilla Moura de Souza Aguiar é professora do Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas da UnB.

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