A Mattel lançou recentemente a primeira Barbie com transtorno do espectro autista (TEA), gerando um debate sobre a importância da representatividade na infância. A boneca, que está disponível no mercado norte-americano e será lançada no Brasil em julho, traz características comuns a pessoas no espectro, como um tablet com aplicativo de comunicação aumentativa e alternativa (CAA), fones de ouvido cor-de-rosa antirruído e um fidget spinner.
Esta iniciativa simbólica reacende um debate fundamental sobre o quanto ver a si mesma representada influencia a forma como uma criança constrói sua autoestima e sua relação com o mundo. Para meninas com TEA, historicamente sub-representadas tanto nos diagnósticos quanto nas narrativas culturais, esse gesto pode ganhar ainda mais relevância.
A psicopedagoga Fabiana, que descobriu ser autista tardiamente, afirma que a falta de conhecimento sobre autismo foi um dos principais fatores para o atraso no diagnóstico. “Eu, assim como outras meninas autistas, era apenas ‘fresca’, ‘problemática’, ‘esquisita’. As hipersensibilidades, a dificuldade de fazer contato visual, o deficit nas interações sociais. Sempre esteve tudo ali. Mas não havia informação suficiente, muito menos representatividade”, diz.
A psicóloga Isabella Roque destaca que a infância é um período em que as crianças estão constantemente buscando referências para entender quem são e como pertencem ao mundo. “Quando uma menina com autismo não se vê representada em histórias, personagens ou brinquedos, a mensagem implícita pode ser a de que há algo de errado com ela. A representatividade funciona como um fator de validação emocional, não como um rótulo”, explica.
A especialista ressalta que meninas com TEA, muitas vezes, aprendem desde cedo a mascarar comportamentos para se adaptar socialmente, o que pode atrasar diagnósticos e gerar sofrimento emocional ao longo da vida. “Quando falamos de representatividade, estamos falando também de visibilidade, de escuta e de reconhecimento dessas vivências”, afirma Isabella.
A representatividade também está diretamente ligada à possibilidade de um diagnóstico mais precoce e a uma vida com mais autonomia. “A intervenção precoce é o melhor caminho para uma vida com maior independência. E a melhor forma de construir um mundo menos capacitista é ensinando desde cedo que pessoas podem ser diferentes”, ressalta Fabiana.
A Mattel, ao lançar a primeira Barbie com TEA, está contribuindo para um movimento mais amplo de revisão das narrativas sobre infância, saúde mental e neurodiversidade. Esse movimento lembra que inclusão não começa apenas em políticas públicas ou diagnósticos, mas também nos símbolos, nas histórias e nos espelhos que oferecemos às crianças desde cedo.



