Câmeras registram como onças alteraram rotas com a seca e o avanço do fogo

Os incêndios que devastaram o Pantanal em 2020 não apenas queimaram a vegetação e alteraram a paisagem do bioma. Eles também mudaram silenciosamente o comportamento de um de seus principais símbolos: a onça-pintada. Pesquisas em andamento na RPPN Sesc Pantanal mostram que, após o fogo histórico que atingiu cerca de 93% da reserva, as onças passaram a redesenhar suas rotas de deslocamento, adaptando-se a um território marcado por novas limitações ambientais.

onca pintada
Monitoramento de longo prazo mostra como cheia, seca e fogo alteram o comportamento das onças – Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

O monitoramento é feito por meio de uma ampla rede de armadilhas fotográficas instaladas ao longo da unidade de conservação, uma área com mais de 100 mil hectares, comparável ao tamanho da cidade do Rio de Janeiro. Ao todo, são 165 câmeras distribuídas em diferentes ambientes, como campos, florestas, matas ciliares e áreas próximas a rios e baías, permitindo acompanhar o movimento das onças ao longo das estações.

Os registros indicam que, mesmo após o impacto severo do fogo, as onças continuam ocupando praticamente toda a reserva. No entanto, a distribuição não é homogênea. Há uma concentração maior em áreas específicas, especialmente próximas a corpos d’água, onde a oferta de presas tende a ser maior e o ambiente oferece melhores condições de sobrevivência.

A pesquisa também revela que os ciclos naturais do Pantanal, entre cheia e seca, passaram a influenciar ainda mais o comportamento desses felinos. Durante o período de seca, as onças utilizam com frequência as estradas internas da reserva, caminhos de uso restrito e com baixo fluxo de veículos, que funcionam como verdadeiros corredores naturais. Esses trajetos lineares facilitam o deslocamento e o acesso a diferentes tipos de ambiente.

Onça-pintada foi registrada a poucos metros da equipe durante gravação na Transpantaneira, no Pantanal. - Alessandro Godoy/Pantanal Filmes
Onça-pintada foi registrada a poucos metros da equipe durante gravação na Transpantaneira, no Pantanal. – Alessandro Godoy/Pantanal Filmes

Já na cheia, quando muitas dessas estradas ficam alagadas, as onças mudam suas rotas. As câmeras mostram que elas passam a buscar áreas mais altas ou regiões onde a água recua mais rapidamente, acompanhando também a movimentação das presas. Esse comportamento reforça o alto grau de adaptação da espécie, capaz de ajustar estratégias de caça e deslocamento conforme as condições do ambiente.

Além de mapear os caminhos das onças, o estudo analisa a relação direta entre a presença do predador e a disponibilidade de alimento. A onça-pintada é considerada um predador de topo e sua ocorrência depende de uma cadeia ecológica equilibrada, que começa na produção vegetal, passa por insetos, peixes e mamíferos herbívoros, até chegar às grandes presas.

Os pesquisadores alertam que as secas mais prolongadas observadas nos últimos anos têm impacto direto nessa cadeia. A redução da umidade e das áreas alagadas afeta a reprodução de peixes e a biomassa disponível para outros animais, o que, em efeito cascata, influencia a presença e a densidade das onças no território.

Outro ponto relevante do monitoramento é a possibilidade de comparar dados atuais com registros feitos antes dos incêndios de 2020. Embora as câmeras antigas tivessem objetivos diferentes, os pesquisadores já conseguem observar padrões semelhantes, como a preferência das onças por ambientes próximos a rios e baías, indicando que certas áreas seguem sendo estratégicas mesmo após grandes distúrbios ambientais.

O trabalho de campo é extenso. Foram percorridos mais de 600 quilômetros de trilhas, muitas delas abertas exclusivamente para a instalação das câmeras. Esse esforço permite acompanhar o comportamento das onças a longo prazo, observando como elas respondem não apenas ao fogo, mas também às mudanças climáticas e aos ciclos naturais do Pantanal.

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