Enquanto o Pix não cruza fronteiras

O Brasil rompeu paradigmas no sistema de pagamentos domésticos com a criação do Pix em 2020. Transferências instantâneas, sem custo para pessoas físicas, totalmente integradas ao sistema financeiro e rapidamente adotadas por milhões de brasileiros transformaram a forma como o dinheiro circulava no País. No entanto, à medida que o debate sobre inovação financeira amadurece, torna-se cada vez mais evidente que o Pix ainda não cumpre uma função essencial na economia global: as fronteiras seguem sendo uma barreira.

Paralelamente, um ecossistema financeiro que opera fora das estruturas tradicionais vem ocupando justamente esse espaço. Liderado pelas stablecoins, essas soluções já permitem a transferência de valor entre países de forma ágil, contínua e em escala relevante. As stablecoins são criptomoedas projetadas para manter valor estável, geralmente atreladas a moedas fiduciárias como o dólar ou o euro. Diferentemente de criptoativos voláteis como o bitcoin, elas oferecem liquidez e previsibilidade, atributos essenciais para pagamentos internacionais.

Dados de mercado indicam que, apenas no primeiro semestre de 2025, o volume de transações com stablecoins em pagamentos internacionais alcançou aproximadamente US$4,6 trilhões, quase igualando o total movimentado ao longo de todo o ano de 2024. Esse crescimento acelerado é impulsionado, sobretudo, pelo uso em remessas e pagamentos entre empresas, especialmente em mercados emergentes.

O contraste com o Pix é inevitável. O sistema brasileiro é um caso de sucesso incontestável no âmbito doméstico, com milhões de transações diárias e alto nível de confiança, respaldado pelo Banco Central. Ainda assim, ele não opera de forma nativa em pagamentos internacionais. Enquanto isso, as stablecoins não reconhecem fronteiras: por operarem em redes blockchain, conectam pessoas e instituições globalmente de maneira interoperável e contínua.

Essa diferença se torna ainda mais evidente quando comparada aos sistemas tradicionais de pagamentos internacionais, como redes de bancos correspondentes, o Swift e os arranjos de cartões, conhecidos por seus custos elevados e prazos longos. São justamente essas fricções que as stablecoins prometem eliminar. Não por acaso, fintechs já desenvolvem soluções que conectam infraestruturas domésticas (como Pix, Sepa ou Wire) a stablecoins, viabilizando pagamentos internacionais mais rápidos e menos custosos.

No Brasil, essa dinâmica ganha contornos interessantes. De um lado, o Banco Central defende que o Pix resolveu inúmeras deficiências das stablecoins no uso doméstico e que estes ativos podem ser menos relevantes para pagamentos locais. De outro, dados da Receita Federal mostram que o volume de negociação de stablecoins nas exchanges brasileiras ultrapassou o do bitcoin, chegando a responder por cerca de 90% das transações reportadas.

Essa movimentação revela duas tendências que coexistem. O Pix permanece dominante em pagamentos cotidianos no Brasil e as stablecoins já se consolidam como ferramenta de acesso ao dólar e liquidez global, algo que o Pix simplesmente não desempenha atualmente. Não é sobre competidores, é sobre complementaridade. O Pix revolucionou os pagamentos no Brasil. As stablecoins estão transformando os pagamentos entre países.

Enxergar essa evolução como uma ameaça ao Pix é menos produtivo do que reconhecer que a integração entre sistemas nacionais eficientes e protocolos globais de transferências de valor representa o próximo passo natural. Resistir à expansão das fronteiras financeiras é tão inútil quanto tentar impedir que um celular se conecte à internet global. A conectividade simplesmente seguirá sua evolução.

O desafio, agora, está em compreender como tradições consolidadas e inovação podem caminhar juntas, garantindo que o Brasil mantenha protagonismo na próxima onda de transformação dos meios de pagamento.

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