Estudo inédito revela emboscada do lobo-guará contra a maior ave da América

Estudo recente publicado na revista Canid Biology & Conservation traz uma revelação surpreendente sobre os hábitos alimentares do lobo-guará, um dos animais mais emblemáticos do Cerrado brasileiro. Pela primeira vez na ciência, lobos-guará foram flagrados se alimentando de uma ema, a maior ave da América do Sul.

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Lobo-guará. (Foto: Marcos Brito)

A revelação impressiona, pois o lobo-guará é um animal onívoro, que se alimenta principalmente de pequenas presas e frutos, em especial a lobeira. Por isso, a descoberta representa um novo paradigma nos estudos sobre o comportamento da espécie.

A predação ocorreu entre a Pousada Trijunção e o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em Minas Gerais. Na ocasião, um casal de lobos-guará monitorado pela ONG Onçafari dividiu a caça com seus quatro filhotes. O banquete foi registrado por uma das armadilhas fotográficas de monitoramento instaladas pelos pesquisadores na região.

O ataque

Quem capturou a ema foi o lobo-guará macho. O animal foi registrado predando uma ema adulta por volta das 19h, enquanto a equipe da Onçafari monitorava a região. O colar de localização instalado no pescoço do animal indicava que o lobo estava nas proximidades. No entanto, a equipe não avistou nem o lobo nem a ema até o momento em que o macho saltou sobre a ave.

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Lobo foi flagrado predando ema pela 1ª vez na Ciência. (Foto: Murilo Frasão Brandino)

Em seguida, ele arrastou o corpo da ema pelo pescoço em direção a uma depressão no solo, fazendo pausas frequentes para descansar e se alimentar da presa. Enquanto isso, a fêmea permaneceu próxima, vocalizando de forma insistente, mas não participou do ataque nem do transporte da carcaça.

Durante a noite, o macho deixou a carcaça ao menos duas vezes. O casal de lobos-guará envolvido nesse evento de predação tinha quatro filhotes à época, com aproximadamente quinze semanas de idade, vivendo a cerca de 3 km do local da predação. Veja o animal predando a ema.

Com base nos dados de GPS, o deslocamento do macho após o ataque sugere que os filhotes tenham sido alimentados na toca com carne da ema.

Na manhã seguinte, uma armadilha fotográfica foi instalada voltada para a carcaça. Ao final da madrugada, a equipe observou o macho retornando ao local e se alimentando por cerca de 15 minutos. Aproximadamente uma hora depois, os lobos já haviam consumido a maior parte da carcaça, restando apenas ossos, moela, penas e pernas.

No mesmo dia, durante a noite, o macho retornou à carcaça, esfregou o focinho nela sem se alimentar e se afastou. A fêmea apareceu logo em seguida, cheirou a carcaça e foi embora. Ela voltou a visitar o local seis dias depois, defecou sobre a carcaça e, então, deixou a área.

O flagrante inédito resultou na nota científica “Primeiro registro de um lobo-guará predando uma ema”, assinada pelos pesquisadores Isabela Meniz, Bárbara Dias, Valquíria Araújo, Carlos Fragoso, Thaís Alencar Silva e Marcella Pônzio.

Emboscada

O estudo chama atenção pelo ineditismo. Até então, havia apenas um único trabalho científico, publicado em 1998, relatando a predação de um animal de maior porte por um lobo-guará: um veado-campeiro. Mas, enquanto naquele estudo o animal perseguia a presa, a natureza rápida e silenciosa do flagrante feito pelos pesquisadores brasileiros sugere uma estratégia diferente do animal: a emboscada.

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Lobo-guará predando pequeno animal no Cerrado. (Foto: Jon Weber)
  1. Ameaça no Cerrado: estudo desvenda sarna que coloca o lobo-guará em risco

O peso do lobo-guará (20–33 kg) é frequentemente semelhante ao de presas maiores, o que pode representar um desafio para a predação — especialmente considerando que os lobos-guará são, em geral, caçadores solitários, ao contrário de outros canídeos sociais.

No entanto, a observação demonstra que os lobos-guará são capazes de superar essas limitações, pegando a presa de surpresa. Cabe citar que a ema pode pesar até 40 kg e atingir entre 1,40 m e 1,70 m de altura, enquanto o lobo-guará é bem mais esguio, com peso variando de 20 a 33 kg e altura máxima aproximada de 1,15 m.

Análises de fezes já indicavam a presença de presas com mais de 10 kg na dieta da espécie. No entanto, esses registros não confirmavam necessariamente a predação ativa de animais adultos, uma vez que o lobo-guará pode se alimentar de carcaças ou predar apenas filhotes.

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Lobo-guará com lobeira na boca, fruta que faz parte da sua dieta. (Foto: Jason Paraíso)

Presa improvável

No estudo, os pesquisadores também levantam possíveis fatores que podem ter levado à predação da ema. O ataque ocorreu em setembro, durante a estação seca, período em que os lobos-guará consomem mais pequenos mamíferos e aves, em comparação com a estação chuvosa, quando há maior consumo de frutos. Entre os fatores apontados estão a escassez de fontes alternativas de alimento de origem vegetal, a abundância local de emas e as demandas reprodutivas.

Ou seja, a ema pode ter sido predada para servir de alimento aos filhotes, já que os lobos-guará fornecem alimento à prole por até sete meses após o nascimento.

A nota científica publicada pelos pesquisadores brasileiros amplia o conhecimento sobre a ecologia comportamental do lobo-guará, demonstrando que a espécie é capaz de caçar presas de grande porte por meio de emboscadas.

O estudo reforça a importância do monitoramento de longo prazo para compreender comportamentos raros, porém ecologicamente relevantes, dessa espécie ameaçada.

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