hip-hop resgata vidas nas ruas da cidade

A dependência química transforma vidas, rompe vínculos familiares e empurra milhares de pessoas para a invisibilidade social. Nas ruas, praças e viadutos da cidade, a cena se repete diariamente. Mas iniciativas que apostam no acolhimento e na cultura têm mostrado que é possível interromper esse ciclo e abrir caminhos de reconstrução e dignidade.

É por isso que um novo movimento ganha força longe dos palcos e das batalhas de dança. Para Aguilberto Rezende, conhecido como Guio, o break não foi apenas um passo artístico, mas o início de uma virada de vida. Produtor cultural, ele celebra hoje dois anos longe das drogas após uma trajetória marcada pela dependência química, pela vida nas ruas e pelo afastamento da família.

“É uma escolha diária. Mas você tem que perseverar, tem um lema que fala ‘só por hoje’, e nesse só por hoje vai um dia, uma semana, três, nove meses, e eu estou limpo a dois anos dessa forma”, explica.

Antes disso, a rotina era dura: praças, viadutos e bairros da cidade serviam de abrigo para quem havia perdido o vínculo com a família, o trabalho e a própria dignidade. “Foi uma vida totalmente dolorosa. Eu tirava a paz da minha família”, relembra.

Cenários como a Praça do Porto, onde a presença de pessoas em situação de rua e dependência química se tornou comum, muitas vezes passam despercebidos pela maioria da população. O problema, aos poucos, se torna invisível. Mas para quem viveu essa realidade, cada rosto carrega uma história possível de ser resgatada.

Foi nesse contexto que o projeto ‘Hip Hop Combate as Drogas’ surgiu como luz no fim do túnel. Criado pelo ‘Mano Raul’ Lázaro, o projeto leva os quatro elementos do hip-hop, break, rap, grafite e DJ, até pessoas em situação de rua e usuários de drogas, propondo inclusão, informação e acolhimento. “A gente leva entretenimento, mas também consciência. A sociedade ainda não acordou para o fato de que a dependência química é uma doença”, afirma o idealizador.

O trabalho de rua foi decisivo para a mudança de Guio. Um convite para dançar break despertou nele uma energia diferente e um novo propósito: parar de usar drogas. Além do projeto, o apoio da companheira foi fundamental para sustentar a caminhada de recuperação.

Hip Hop
Do vício à transformação: hip-hop resgata vidas nas ruas da cidade. Foto: Carolina Andreani

Especialistas reforçam que a dependência química compromete profundamente a vida social. A psiquiatra Luciana Arcos, que atua no tratamento de dependentes, explica que a doença pode levar à perda de trabalho, estudos, vínculos familiares e da própria funcionalidade social. Para ela, o maior obstáculo ainda é o julgamento.

“Existe uma cultura de achar que o dependente químico é o lixo da sociedade. Ninguém está ali porque quer. A maioria tem muita dificuldade de sair sozinha”, destaca.

Segundo a profissional, iniciativas inclusivas, seja por meio da arte, da cultura ou de outras formas de terapia, ajudam a reinserir essas pessoas na sociedade e a reconstruir identidades. “Quando você acolhe, você devolve essa pessoa à vida.”

Histórias como a de Guio mostram que, apesar das dificuldades, é possível recomeçar quando existe apoio e oportunidade. Hoje, ele não apenas vive uma nova fase, como também ajuda a levar esperança a quem ainda enfrenta a mesma luta. A conclusão é clara: o caminho da transformação passa pelo acolhimento, na arte, na cultura, na fé ou no trabalho, e pela certeza de que ninguém deve ser deixado para trás.

Projeto Multi

A reportagem foi produzida pela repórter Carolina Andreani, pelo projeto Multi, uma iniciativa da TV Centro América para formar profissionais dos bastidores como jornalistas multiplataforma.

  1. Sanduíche de pernil é aposta de lanche fácil com o que sobrou a ceia

  2. Detox inteligente: 5 dicas para voltar à dieta sem neura após festas

  3. Dono de touro desaparecido em Dourados relata tentativas de golpe

Primeira Pagina

Compartilhe :

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest