Ignorância e Clima: Médico da USP Alerta para Desafios da Saúde Planetária

Paulo Saldiva, renomado pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Nacional de Medicina (ANM), aponta para um desafio global que transcende as mudanças climáticas, atingindo a própria essência da humanidade. O especialista, que dedica décadas ao estudo dos impactos ambientais na saúde, defende a necessidade urgente de mobilização política e investigação aprofundada sobre a disseminação da ignorância, voluntária ou não, como obstáculos cruciais a serem superados.

Saldiva, titular do Departamento de Patologia da USP desde 1980, busca integrar a medicina a outras áreas do conhecimento, visando uma compreensão abrangente e um enfrentamento eficaz de eventos climáticos extremos, como os devastadores incêndios florestais que assolaram o Mato Grosso do Sul em 2024.

“É preciso mais cidadania, redução das desigualdades, sentimento de humanidade coletiva e discussão de temas realmente relevantes para que alguma mudança para melhor ainda seja aplicada”, enfatiza o médico. Ele alerta para o aumento do risco de diversas doenças devido às alterações climáticas, como raiva, sarampo e coqueluche, descrevendo o cenário atual como “o apocalipse ocorrendo”.

Para ilustrar os impactos da estiagem e da baixa umidade, Saldiva explica que a desidratação das vias aéreas compromete a filtragem de bactérias causadoras de doenças, enquanto a sobrecarga nos rins pode levar a problemas renais e infecções. “É disso que as pessoas morrem”, resume, ressaltando que as causas finais, como infartos e AVCs, muitas vezes mascaram a influência direta das condições climáticas extremas.

O pesquisador defende que as soluções para os desafios climáticos exigem uma abordagem terapêutica, com acompanhamento contínuo e engajamento de diversas áreas do conhecimento, e não apenas da engenharia. Ele critica a procrastinação de medidas necessárias sob o pretexto da busca por novas evidências científicas, defendendo um “mutirão de ações e engajamento popular”.

Saldiva critica o “cigarro eletrônico” da indústria automobilística – o carro elétrico – propondo uma solução que continua gerando poluição, porém mais concentrada na sua produção (exploração de lítio, cobalto, níquel, grafite e manganês só para as baterias do que no uso de combustíveis).

Diante do aumento da fragilidade da população, com o envelhecimento e o aumento da desigualdade, Saldiva defende que a saúde deve ser o centro do debate sobre as mudanças climáticas, pois o medo da morte é um motivador universal. O cientista conclui, enfatizando a necessidade de combater a ignorância que se manifesta na disseminação de mentiras como verdades, motivada por cobiça, vaidade ou preconceito, e apela para as humanidades, as ciências humanas, a comunicação e a compaixão como ferramentas cruciais para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.

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