memória vive no gesto de fé deixado ao afilhado, diz amiga
Jornal do MS
Há um ano, o tempo parou para a família e os amigos da jornalista Vanessa Ricarte. Naquela tarde de 12 de fevereiro de 2025, a comunicadora era esfaqueada pelo ex-noivo horas após procurar a polícia para denunciá-lo. Nesse um ano sem a melhor amiga, Alessandra Izaac relembra da amiga com muito carinho e saudade, marcada por gesto de fé deixado por Vanessa ao afilhado, Amin.
Alessandra Izaac e Vanessa Ricarte | (Foto: arquivo pessoal)
Vanessa partiu, mas deixou marcas profundas. Deixou a risada alta, o abraço demorado, o cuidado atento com cada detalhe da vida de quem amava.
Alessandra conversou com o Primeira Página e lamentou a demora no julgamento. A ausência na mesa, nas mensagens diárias, nas conversas que eram rotina. E, sobretudo, a ausência de uma resposta da Justiça.
O réu, Caio Nascimento, segue sem data de julgamento. Enquanto o processo caminha, quem ficou conta os dias.
Alessandra transforma a dor em palavras ao lembrar que hoje completa um ano do crime, ela desabafa:
“Um ano de dor para a família, de ausência irreparável e de uma pergunta que segue sem resposta: quando haverá justiça? O tempo passa, o caso sai dos holofotes, a imprensa silencia, e o Judiciário caminha em passos lentos. Mas para quem perdeu alguém, o tempo não cura quando a justiça não vem”, diz Alessandra, lamentando a demora no julgamento.
Entre as lembranças que resistem ao tempo, há um símbolo que ganhou ainda mais significado: a Bíblia que Vanessa deu de presente ao afilhado, Amin. Foi a primeira Bíblia dele. Hoje, tornou-se uma espécie de elo entre o que ficou e o que foi interrompido.
Alessandra conta que o menino fala da madrinha com frequência e que o apego ao presente surpreende a família.
“Tem dias que dura o dia todo. Ela deu a primeira Bíblia dele. Ele se apegou na bíblia de tal forma que não explicamos. Minha mãe chora de ver ele conversando com a Bíblia. Parece que ela [Vanessa] está ali. Mudamos de casa devido tudo que aconteceu, e mesmo assim ele achou a Bíblia sozinho”, revelou.
A cena do menino encontrando sozinho a Bíblia após a mudança de casa, retirando-a dos sacos e colocando-a entre seus pertences, é descrita como uma das mais difíceis desde o crime. O livro virou presença concreta da madrinha que ele não esquece.
Para Alessandra, o último ano é definido por um sentimento que mistura saudade e revolta. Ao falar da amiga, a emoção atravessa cada lembrança.
“Um vazio cheio de dor e revolta. Porque se houvesse justiça ok, mas justiça tardia não é justiça. Poxa, um ano e nada. Eu sinto a falta dela, ela era a pessoa que eu desabafava, ela também me contava todo o dia dela”, disse.
Alessandra e Vanessa | (Foto: arquivo pessoal)
Vanessa não tinha filhos, mas queria ser mãe. Participou da gestação de Amin como se já exercesse esse papel. Esteve presente no puerpério, na depressão pós-parto, nos dias difíceis e nos dias de riso. Era confidente, companhia constante, apoio incondicional.
“Conversávamos sobre tudo, família, serviço, crianças. Ela não tinha [filhos] , mas queria tanto ser mãe que ela pensava exatamente como uma mãe. Ela amava o Amin na minha barriga. Eu mau sabia que mundo eu estava. Momentos marcantes como puerpério , depressão pós-parto. Ela passou tudo comigo. Ela me fazia rir sem parar, sinto muita falta”, relembrou.
Um ano depois, a dor não se dissolveu. Ela se reorganizou em memória, em cobrança e em fé. O processo judicial ainda não tem data para julgamento. A família segue aguardando.
Enquanto isso, a lembrança de Vanessa permanece viva, no desabafo da melhor amiga, na indignação pela demora da Justiça e na pequena Bíblia que Amin segura como se segurasse a própria madrinha.
Caso Vanessa Ricarte
O feminicídio de Vanessa Ricarte completa um ano nesta quinta-feira (12). O crime, ocorrido em 12 de fevereiro de 2025, teve como autor o então companheiro da vítima, segundo denúncia do Ministério Público, e foi enquadrado como feminicídio, quando o assassinato é motivado pela condição de gênero da mulher, geralmente em contexto de violência doméstica.
À época, Vanessa foi morta dentro da residência onde vivia. De acordo com a investigação policial, o crime ocorreu após um histórico de conflitos na relação. O até então suspeito foi preso e indiciado por feminicídio.
O caso ganhou repercussão nacional e mobilizou manifestações de familiares, amigos e entidades de defesa dos direitos das mulheres.
O processo ainda tramita na Justiça. Nesta quarta-feira (11), às vésperas do aniversário de morte de Vanessa, o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) emitiu nota sobre o andamento do processo, que corre em sigilo absoluto na Justiça. Após 12 meses da denúncia feita pelo Ministério Público, o caso ainda está na fase de audiências e não tem data para ser julgado.
O caso de Vanessa Ricarte passou a integrar as estatísticas de violência de gênero no Estado e foi citado em debates públicos sobre medidas protetivas, prevenção e fortalecimento da rede de atendimento às vítimas.
Um ano depois, a data ainda gera discussão sobre a efetividade das políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica e familiar. Segundo dados oficiais divulgados ao longo de 2025, ocorreram 39 feminicídios em Mato Grosso do Sul. O caso de Vanessa foi o segundo a ser registrado em um ano considerado um dos mais violentos para as mulheres na história de MS.
Mulheres mortas por feminicídio em 2025 (Foto: resprodução)