O ano de 2025 foi marcado por índices alarmantes de violência contra a mulher, com um crescimento notável no número de feminicídios e tentativas de assassinato em Mato Grosso do Sul. Diante dessa escalada, há uma questão importante e urgente para o combate a violência contra a mulher: o posicionamento masculino é indispensável para interromper esse ciclo de brutalidade.

Dados do Monitor de Violência Contra a Mulher mostram que, em 365 dias, 21.737 mulheres buscaram as unidades policiais de MS com objetivo de denunciar serem vítimas de violência doméstica. Desse total, os maiores números se concentram em cidades mais populosas, como Campo Grande (7.722), Dourados (1.868) e Três Lagoas (1.070).
Embora leis e punições rigorosas sejam essenciais para tratar o efeito da violência, especialistas apontam que é preciso atacar a causa. A base do problema reside em uma estrutura cultural que, desde o tempo do patriarcado, coloca o homem em uma posição de domínio sobre a mulher, tratando-a como posse, conforme a análise do doutor em antropologia, ciências sociais e sociólogo, Guilherme Rodrigues Passamani.
“É preciso tratar a causa da violência contra as mulheres, e o tratamento dessa causa exige muito tempo. Porque é muito mais profundo, precisa ser estrutural, porque mexe nas bases da cultura que nos forma como cidadãos, desde os tempos do patriarcado.
Os efeitos do patriarcado, um imaginário patriarcal ainda nos ronda, embora a gente não viva mais sobre os efeitos de um sistema patriarcal propriamente dito, mas os seus efeitos continuam aqui. E esse homem que era dono de tudo, inclusive das mulheres, ele acha que tem todos os direitos sobre aquilo que seria a sua posse, sobre aquilo que estaria sobre o seu domínio, e é essa cultura que precisa ser transformada.”Guilherme Rodrigues Passamani
Nas redes sociais, o ator Rômulo Estrela, no ar como Paulinho na novela Três Graças da TV Globo, publicou um vídeo levantando um alerta urgente, para que os homens se posicionem contra a violência às mulheres.
“A gente tem que começar a se envergonhar do que está acontecendo. As mulheres já fizeram de tudo, já se educaram, se letraram. As mulheres pediram, elas exigiram, elas estão gritando, estão se manifestando, indo às ruas. Agora é com a gente, homens, porque não dá mais!”
Romulo Estrela, ator
Enquanto a transformação cultural avança a passos lentos, a realidade imediata exige medidas drásticas de proteção. Do ponto de vista judicial, para casos de agressão em curso, a denúncia e separação é o caminho, pois o diálogo raramente resolve e o risco de reincidência e morte é alto, conforme o Juiz de Direito Aluízio Pereira dos Santos, titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande.
“É muito lamentável que isso vem ocorrendo. Eu, lá no Tribunal do Júri, acompanho a escalada da violência doméstica e nós tivemos vários casos, como em maio deste ano, da Gisele foi queimada viva, jogada dentro de um poço. […]
Nós damos a prioridade absoluta para esses tipos de julgamento, então, agrediu a mulher ou matou, o julgamento é rápido. Agora, qual a solução para evitar ou diminuir esse tipo de crime? É a vítima denunciar o agressor e também a separação.”Aluízio Pereira dos Santos, juiz titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande
O histórico de casos demonstra que dar “novas oportunidades” ao agressor muitas vezes resulta em reincidência e mortes. Além disso, buscar o apoio do Estado e da família é o caminho mais seguro para garantir a proteção da integridade da mulher.
Segundo a Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública), as vítimas mais frequentes são mulheres pardas, de 30 a 59 anos, mortas dentro de casa e pelos próprios maridos ou companheiros.
Os dados mostram que nenhuma mulher está segura, sejam meninas, jovens, adultas ou idosas, em casa, na rua, no trabalho, na escola ou até em hospitais. Os autores vão de companheiros e namorados a filhos, irmãos e até avôs.
O atleta paralímpico e bicampeão mundial Yeltsin Jacques reforça que o respeito é a base de qualquer vitória. Segundo ele, os homens não podem apenas observar, mas devem agir para proteger seus círculos familiares e a sociedade como um todo.
“A força de um atleta, ela não se constrói só nas pistas, só nos resultados, mas ela se constrói no posicionamento social, ela se constrói nas atitudes. Essa é a força que a gente tem que mostrar e que Mato Grosso do Sul tem que buscar para 2026 e ser cada vez melhor. Então, passo aqui para convidar vocês para nos posicionarmos contra essa violência que tem cada vez mais assolado a sociedade, as famílias. do Mato Grosso do Sul”.
Yeltsin Jacques, atleta paralímpico
Para o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), o trabalho vem sendo realizado juntamente com o sentimento de impunidade, principalmente quando o assunto envolve violência doméstica.
“Nós temos um país completamente machista, em que o retrato dessa sociedade machista perpassa muito pela violência doméstica, a dominação. É importante mencionar, por vezes, e nós temos um número de Campo Grande, por vezes, esta mulher não passou pelo sistema de justiça, não acionou uma medida protetiva, e vem a falecer, vem ser assassinada por aquela pessoa que ela mais confiava dentro de casa. Mas, muitas vezes, porque ela não percebe que está num ciclo de violência. Às vezes, essa violência é psicológica, há uma dependência econômica, vive num ciclo de violência que nem a mulher em si sabe que está envolvida nisso. E quando vem, vem diretamente com o assassinato e com o feminicídio. Então, é necessário o poder público como um todo, e nós estamos trabalhando nisso, com a prevenção. As campanhas relacionadas à identificação de uma violência que está sendo praticada e a mulher não percebe”, afirmou o procurador-geral de Justiça do MPMS, Romão Ávila.
Romão Avila Milhan Junior, Procurador-Geral de Justiça






