O escritor Itamar Vieira Junior, um dos nomes mais relevantes da literatura contemporânea brasileira, participou da Feira Literária de Bonito (FLIB) e trouxe uma reflexão que vai além de suas obras. Autor do aclamado Torto Arado, que já foi traduzido para diversas línguas, ele abordou temas como direito à terra, memória, identidade e os desafios sociais que ainda afligem o Brasil. Em sua fala, Itamar enfatizou que a literatura deve ser vista não apenas como uma forma de entretenimento, mas como um espaço vital para a preservação de memórias e a promoção de debates sobre questões históricas que permanecem pertinentes aos dias de hoje.
"A arte é a expressão humana talvez mais sofisticada que existe. Ela não existe sozinha, existe acompanhada da imaginação, desse poder de criação que pertence a todos nós", declarou o autor. Ele argumentou que toda obra literária surge de um incômodo e que o ato de escrever envolve uma investigação profunda da realidade e das experiências coletivas. Para Itamar, escrever é um processo que exige reflexão e que busca entender tanto o mundo quanto a própria narrativa pessoal.
Apesar de suas obras lidarem com temas como violência e desigualdade, Itamar Vieira Junior acredita que elas também transmitem esperança. Durante a conversa, o autor explicou que essa capacidade de equilibrar dureza e afeto reflete a identidade brasileira. "Apesar da dureza da nossa história e do nosso cotidiano, temos uma enorme capacidade de projetar um futuro diferente", enfatizou. Para ele, o Brasil, mesmo após ter passado por momentos traumáticos como a colonização e a escravidão, ainda preserva a capacidade de imaginar um futuro melhor.
Itamar comentou sobre a atual divisão política do país, mas observou que os brasileiros ainda conseguem encontrar pontos de união através de manifestações culturais e populares. O valor da terra, um tema central de Torto Arado, foi destacado como fundamental para entender a relação das pessoas com suas raízes e a luta por justiça social.
O autor também refletiu sobre sua trajetória profissional e como ela influenciou sua produção literária. Ele revelou que a primeira versão de Torto Arado foi escrita há cerca de vinte anos, quando ainda conhecia a vida rural apenas por relatos familiares. Foi somente após sua atuação no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e visitas a comunidades quilombolas e assentamentos que ele conseguiu oferecer maior profundidade e complexidade aos personagens de sua narrativa. "A imaginação se alimenta da vida", afirmou.
A convivência com essas comunidades permitiu que Itamar apresentasse ao público um Brasil que muitas vezes permanece invisível, enriquecendo suas obras com experiências reais e significativas. O autor finalizou sua participação destacando a necessidade de que a literatura mantenha sua liberdade criativa, sem se autocensurar, para continuar dando voz à imaginação e às histórias que precisam ser contadas.





