Luis Fernando Verissimo soube comentar o presente em textos atemporais

Porto Alegre se despede de Luis Fernando Verissimo, ícone da crônica brasileira, falecido no sábado aos 88 anos. O escritor estava internado em um hospital da capital gaúcha desde a segunda semana de agosto, vindo a óbito em decorrência de complicações de uma pneumonia.

Nos últimos anos, Verissimo enfrentou desafios de saúde, incluindo um AVC em janeiro de 2021 que afetou suas funções cognitivas. Apesar das dificuldades, sua compreensão do mundo ao redor permaneceu intacta.

O velório ocorreu na tarde de sábado no Salão Nobre Júlio de Castilhos, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Em sinal de luto, o governador Eduardo Leite decretou três dias de luto oficial no estado.

Verissimo iniciou sua colaboração com o Estadão em 1988, publicando sua primeira crônica semanal no Caderno 2 no ano seguinte, onde manteve sua escrita até o AVC em 2021.

Reconhecido como cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e torcedor do Internacional, Verissimo foi um autor de múltiplas facetas. Sua obra abrange mais de 70 livros, incluindo os sucessos “O Analista de Bagé” e “A Comédia da Vida Privada”, além de personagens memoráveis como a Velhinha de Taubaté e o detetive Ed Mort.

Filho do renomado escritor Erico Verissimo, Luis Fernando iniciou sua carreira literária aos 30 anos, após explorar diversas áreas artísticas e uma breve incursão no jornalismo.

Seu primeiro livro, “O Popular”, foi lançado em 1973, marcando o início de uma trajetória de sucesso. O personagem Ed Mort, satirizando romances policiais, inspirou quadrinhos e um filme.

“O Analista de Bagé”, lançado em 1981, tornou-se um fenômeno de vendas. A figura do psicanalista gaúcho, com seu sotaque e costumes fronteiriços, conquistou o público, gerando livros, quadrinhos e antologias.

Verissimo também expandiu sua atuação para a televisão, com a adaptação de “Comédia da Vida Privada”, uma série de 21 programas.

A timidez era uma característica marcante do escritor, que preferia expressar seu humor na escrita. Ele se definia como alguém que “faz humor”, e não um “humorista”.

Durante a ditadura, Verissimo adotou uma estratégia para driblar a censura, priorizando o envio de cartuns políticos, considerados menos ameaçadores pelos censores.

Apesar de se autodeclarar um “gaúcho desnaturado”, Verissimo celebrou o nascimento de sua neta Lucinda, em 2008, no dia do aniversário do Internacional.

Em 2020, o professor Elias Thomé Saliba destacou Verissimo como o cronista mais popular do Brasil, capaz de expressar os pensamentos do leitor.

Apesar da crescente digitalização, Verissimo se considerava um “analfabeto em informática”, utilizando apenas e-mails e o Google.

Questionado sobre a receita para suas crônicas serem populares, Verissimo atribuiu o sucesso ao gênero em si e à clareza na escrita. Ele acreditava que a concisão dos textos tornava a leitura acessível a todos.

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