Entre os anos finais do século 19 e os primeiros anos do século 20, Corumbá, localizada no Pantanal de Mato Grosso do Sul, se transformou em um vibrante centro de entretenimento. O Rio Paraguai servia como palco para regatas, banhos e passeios, enquanto as ruas da cidade eram animadas por circos, bailes e peças teatrais. Essas manifestações culturais não apenas revelavam como os corumbaenses ocupavam seus espaços públicos, mas também evidenciavam as tensões sociais em relação ao que era considerado diversão apropriada e o que enfrentava críticas e restrições.
O professor Leonardo do Couto, do campus Pantanal da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), tem se dedicado a investigar esses aspectos desde 2024. Com base em jornais e documentos da época, sua pesquisa busca compreender onde essas atividades ocorriam, quem participava e por que algumas eram vistas como progresso, enquanto outras eram alvo de vigilância. O Rio Paraguai, além de ser fundamental para o transporte e comércio, era um local importante para a diversão, atraindo banhistas e espectadores em suas margens.
As regatas, que já apareciam nos registros das últimas décadas do século 19, evoluíram no início do século 20, com a introdução de horários, categorias, premiações e juízes, indicando um processo de organização do esporte. O centro da cidade também se tornava um espaço de lazer, com circos se instalando em praças e terrenos acessíveis. Os primeiros registros de espetáculos circenses em Corumbá datam de 1880, e com o tempo, essas apresentações passaram a incluir uma variedade de números, como circo, teatro e cinema, refletindo a diversidade cultural trazida pelo porto, que facilitava a circulação de viajantes e novidades.
Além do cinema e do teatro, a vida social da cidade era marcada por festas, cururu e jogos, que, em alguns casos, ocorriam simultaneamente e sob olhares distintos da imprensa. A pesquisa de Leonardo do Couto não se limita a entender como Corumbá se divertia, mas também questiona quem tinha acesso a essas diversões, em quais espaços e sob quais regras. Clubes e competições, por exemplo, muitas vezes exigiam dinheiro ou relações sociais que limitavam a participação de certos grupos.
Os jornais da época são uma fonte rica para o estudo, mas o pesquisador alerta que é preciso interpretá-los com cautela. Esses registros tendem a destacar as autoridades e figuras de destaque, enquanto a presença de mulheres, trabalhadores e grupos racializados é menos visível, embora sua participação na vida da cidade seja reconhecida. Até o momento, a pesquisa resultou em dois artigos publicados e um terceiro aceito para publicação, envolvendo também estudantes da UFMS na organização das fontes e na reconstrução das histórias dessas práticas.
Os próximos passos do estudo incluem a ampliação da consulta a documentos municipais, registros de clubes, fotografias e relatos pessoais. Para Leonardo, investigar as diversões do passado é uma maneira de refletir sobre a Corumbá contemporânea, já que elementos como o porto, as margens do rio e o casario ainda permanecem na paisagem, embora seus usos tenham mudado ao longo do tempo.






