Em novembro de 1889, na Rua do Catete, no Rio de Janeiro, um confeiteiro de nome Custódio, que na verdade é uma criação de Machado de Assis, se vê diante de uma nova tabuleta recém-pintada. O estabelecimento, que por trinta anos foi conhecido como Confeitaria do Império, precisou ser renomeado após a queda da monarquia. Com a tinta ainda fresca, o confeiteiro se preocupa com a nova denominação, temendo que a república não se consolide. O Conselheiro Aires, diplomata aposentado, sugere que o nome mudasse para Confeitaria do Governo, uma alternativa que serviria a qualquer regime. Custódio, relutante, acaba decidindo por manter seu nome na tabuleta, refletindo a instabilidade política que permeava o país na época.
A obra de Machado de Assis, presente em Esaú e Jacó, levanta questões sobre a permanência das instituições e a mudança de governos no Brasil. O autor menciona a série Presidente da Semana, onde o jornalista Rodrigo Vizeu revisita a história de cada presidente do Brasil, desde Deodoro até o ano de 2018. Apesar das mudanças de rostos e ideologias, a essência da política brasileira parece permanecer a mesma, como a tabuleta que se resiste a ser alterada.
Deodoro da Fonseca, que proclamou a República, era um monarquista e amigo do imperador. Sua decisão de derrubar o governo foi motivada por rivalidades pessoais, demonstrando como as convicções políticas podem estar profundamente ligadas a interesses individuais. A narrativa sugere que a busca pelo poder e pela estabilidade política é uma constante na história do Brasil, onde a república é frequentemente tratada como uma mercadoria a ser negociada.
Custódio, que simboliza aquele que guarda, observa que a república se afastou do que deveria representar. A ideia de que a política é uma Confeitaria do Governo, onde cada um busca seu benefício, é uma crítica à forma como a coisa pública é tratada no país. A expressão res publica, que significa a coisa pública, é distorcida em um ambiente onde cada um entra para levar algo e sai insatisfeito com o preço pago.
O autor menciona que, no próximo dia 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas, um momento em que não há necessidade de exibir tabuletas. Diante da urna, a escolha se reduz a números, rostos e siglas, culminando na confirmação através de uma tecla verde. A dúvida que persiste é sobre o que realmente será confirmado, refletindo a complexidade da relação entre o cidadão e a política no Brasil.






